Uma vez, quando eu - Vladimir Veličković - estava a passear pelas ruas de Belgrado numa tarde chuvosa, o meu olhar deparou-se com uma cena que me ficou na memória até hoje: Um velho de pé, debaixo de um dossel a pingar, segurando um bloco de desenho amarrotado nas mãos. Os seus dedos, marcados pelo tempo, deslizavam sobre o papel como se ele estivesse a recriar a própria cidade com apenas algumas linhas. Naquele momento, apercebi-me do quanto a Sérvia conta as suas histórias não só em monumentos, mas sobretudo em imagens, cores e linhas. A arte sérvia vive destes momentos tranquilos, muitas vezes esquecidos - da poesia da vida quotidiana, captada em aguarelas, desenhos e fotografias que tornam visível o invisível.
O que muitas pessoas não se apercebem: A pintura sérvia é um caleidoscópio de Oriente e Ocidente, de tradição e de novos começos. Nos cafés enfumaçados de Skadarlija, onde outrora boémios e intelectuais se defrontavam, foram criados não só debates acalorados, mas também esboços em guardanapos, retratos espontâneos e primeiros esboços de obras que mais tarde viriam a adornar as paredes da Galeria Nacional. Os artistas da minha terra natal - de Paja Jovanović, cujas pinturas a óleo captam a luz das paisagens dos Balcãs como um segredo precioso, a Nadežda Petrović, cujas pinceladas expressivas tornam tangíveis o sofrimento e a esperança de toda uma geração - todos eles deram à Sérvia uma assinatura inconfundível. As suas obras não são meras imagens, mas mapas emocionais sobre os quais se sobrepõem a história, a dor e a saudade.
Mas a Sérvia não seria a Sérvia se não explorasse constantemente os limites da sua própria arte. Na década de 1960, quando o mundo estava em convulsão, artistas como Dušan Džamonja e Marina Abramović pegaram na câmara, no papel fotográfico e na serigrafia - e transformaram a cena artística sérvia num laboratório de experimentação. A fotografia tornou-se um espelho de uma sociedade em mudança, a serigrafia um protesto contra o esquecimento. Ainda hoje, quando percorro os estúdios de jovens artistas, sinto este desejo irreprimível de novos começos: velhas fotografias de família são pintadas com cores vibrantes de guache, colagens são criadas a partir de recortes de jornais e desenhos a carvão que celebram a vida entre o Danúbio e o Sava em todas as suas contradições.
A Sérvia é um país que não esconde a sua arte em naturezas mortas com molduras douradas, mas leva-a para as ruas, para os cafés e para o coração das pessoas. Se olharmos com atenção, descobriremos um pedaço desta alma indomável em cada fotografia, cada desenho, cada impressão - e talvez, como eu fiz à chuva, um momento que ficará connosco.
Uma vez, quando eu - Vladimir Veličković - estava a passear pelas ruas de Belgrado numa tarde chuvosa, o meu olhar deparou-se com uma cena que me ficou na memória até hoje: Um velho de pé, debaixo de um dossel a pingar, segurando um bloco de desenho amarrotado nas mãos. Os seus dedos, marcados pelo tempo, deslizavam sobre o papel como se ele estivesse a recriar a própria cidade com apenas algumas linhas. Naquele momento, apercebi-me do quanto a Sérvia conta as suas histórias não só em monumentos, mas sobretudo em imagens, cores e linhas. A arte sérvia vive destes momentos tranquilos, muitas vezes esquecidos - da poesia da vida quotidiana, captada em aguarelas, desenhos e fotografias que tornam visível o invisível.
O que muitas pessoas não se apercebem: A pintura sérvia é um caleidoscópio de Oriente e Ocidente, de tradição e de novos começos. Nos cafés enfumaçados de Skadarlija, onde outrora boémios e intelectuais se defrontavam, foram criados não só debates acalorados, mas também esboços em guardanapos, retratos espontâneos e primeiros esboços de obras que mais tarde viriam a adornar as paredes da Galeria Nacional. Os artistas da minha terra natal - de Paja Jovanović, cujas pinturas a óleo captam a luz das paisagens dos Balcãs como um segredo precioso, a Nadežda Petrović, cujas pinceladas expressivas tornam tangíveis o sofrimento e a esperança de toda uma geração - todos eles deram à Sérvia uma assinatura inconfundível. As suas obras não são meras imagens, mas mapas emocionais sobre os quais se sobrepõem a história, a dor e a saudade.
Mas a Sérvia não seria a Sérvia se não explorasse constantemente os limites da sua própria arte. Na década de 1960, quando o mundo estava em convulsão, artistas como Dušan Džamonja e Marina Abramović pegaram na câmara, no papel fotográfico e na serigrafia - e transformaram a cena artística sérvia num laboratório de experimentação. A fotografia tornou-se um espelho de uma sociedade em mudança, a serigrafia um protesto contra o esquecimento. Ainda hoje, quando percorro os estúdios de jovens artistas, sinto este desejo irreprimível de novos começos: velhas fotografias de família são pintadas com cores vibrantes de guache, colagens são criadas a partir de recortes de jornais e desenhos a carvão que celebram a vida entre o Danúbio e o Sava em todas as suas contradições.
A Sérvia é um país que não esconde a sua arte em naturezas mortas com molduras douradas, mas leva-a para as ruas, para os cafés e para o coração das pessoas. Se olharmos com atenção, descobriremos um pedaço desta alma indomável em cada fotografia, cada desenho, cada impressão - e talvez, como eu fiz à chuva, um momento que ficará connosco.